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segunda-feira, 3 de maio de 2010

algum trecho

(...)

Mack se virou, meio perplexo, sentindo que aquilo já estava indo longe demais. Enquanto refletia, olhou pela janela para um jardim de aparência selvagem.
- Você sabia que eu viria, não é? - disse finalmente, baixinho.
- Claro que sabia. - Ela estava ocupada de novo, de costas para ele.
- Então eu não estava livre para deixar de vir? Eu não tinha opção?
Papai se virou de novo para encará-lo, agora com farinha e massa nas mãos.
- Boa pergunta; até que profundidade você gostaria de ir? - Ela não esperou resposta, sabendo que Mack não tinha. Em vez disso, perguntou: - Você acredita que está livre pra ir embora?
- Acho que sim. Estou?
- Claro que está! Não gosto de prisioneiros. Você está livre para sair por essa porta agora mesmo e voltar para a sua casa vazia. Mas eu sei que você é curioso demais para ir. Será que isso reduz a sua liberdade de partir?
Ela parou apenas brevemente e depois voltou para sua tarefa, falando com ele por cima do ombro.
- Se você quiser ir só um pouquinho mais fundo, poderíamos falar sobre a natureza da própria liberdade. Será que liberdade significa que você tem permissão para fazer o que quer? Ou poderíamos falar sobre tudo que limita sua liberdade. A herança genética de sua família, seu DNA específico, seu metabolismo, as questões quânticas que acontecem num nível subatômico onde só eu sou a observadora sempre presente. Existem as doenças de sua alma que o inibem e amarram, as influências sociais externas, os hábitos que criaram elos e caminhos sinápticos no seu cérebro. E há os anúncios, as propagandas e os paradigmas. Diante dessa coletânia de inibidores multifacetados - ela suspirou -, o que é de fato a liberdade?
Mack ficou ali parado, sem saber o que dizer.
- Só eu posso libertá-lo, Mackenzie, mas a liberdade jamais pode ser forçada.
- Não entendo. Não estou entendendo o que acaba de dizer.
Ela se virou e sorriu.
- Eu sei. Não falei para que você entendesse agora. Falei para mais tarde. No ponto em que estamos, você ainda não compreende que a liberdade é um processo de crescimento. - Estendendo gentilmente as mãos sujas de farinha, ela segurou as de Mack e, olhando-o direto nos olhos, continuou: - Mackenzie, a Verdade irá libertá-lo, e a Verdade tem nome. Neste momento ele está na carpintaria, coberto de serragem. Tudo tem a ver com ele. E a liberdade é um processo que acontece dentro de um relacionamento com ele. Então todas essas coisas que você sente borbulhando por dentro vão começar a sair.
- Como você pode realmente saber como me sinto? - perguntou Mack, encarando-a de volta.
Papai não respondeu, apenas olhou para as mãos dos dois. O olhar de Mack seguiu o dela, e pela primeira vez ele notou as cicatrizes nos punhos da negra, como as que agora presumia que Jesus também tinha nos dele. Ela permitiu que ele tocasse com ternura as cicatrizes, marcas de furos fundos, e finalmente Mack ergue os olhos para o dela. Lágrimas desciam lentamente pelo rosto de Papai, pequenos caminhos através da farinha que empoeirava suas faces.
- Jamais pense que o que meu filho optou por fazer não nos custou caro. O amor sempre deixa uma marca significativa - ela declarou, baixinho e gentilmente. - Nós estávamos lá, juntos.

(Trecho retirado do Livro A CABANA - Willian P. Young)

2 comentários:

  1. Essa prévia me deixou com mais vontade ainda de ler. Vc acredita que estou enrolano até hj?

    Beijo

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  2. rs! Não deveria. Esse livro eh fantástico! Um dos melhores... rs.

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