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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Homem sensível

Afinal, para que serve isso?
Agora quem irá matar baratas, abrir o pote de palmito e trocar o pneu do carro?

Por Claudio Manoel


Eles eram raros. Tão poucos que, enquanto muitos duvidavam até da existência deles, outros só os reconheciam no imaginário do mulherio: no terreno dos contos de fada, no campo florido dos sonhos delas. Eles eram os príncipes encantados (hoje, vampiros que não mordem), garbosos, lindos, românticos e depilados. Surgiam repentinamente nos seus cavalos brancos e as levavam para um reino bem distante da vida real.

Aí a vida real mudou. Veio pílula, veio feminismo, veio mercado de trabalho, e as moças passaram a querer mais, é claro. Afinal, depois de milênios sendo propriedade de machos (pais, irmãos, maridos), em geral abusivos, quem é que não sonharia com outro tipo de homem pra chamar de seu? Até tu. Até eu! E foi assim que, de pouquíssimos, eles passaram a ser milhões. Atendendo à imensa demanda represada, surgiu o maior produto/legado das conquistas femininas (depois da pílula e do mercado de trabalho, eu acho): o “Homem Sensível”. O novo espécime foi substituindo aos poucos o modelo mais antigo: aquele bem mais tosco, grosseiro, peludo e de hábitos higiênicos duvidosos.

Mas a coisa não parou aí. Com os antigos competidores totalmente desvalorizados ou postos na “clandestinidade”, o HS passou a reinar absoluto como o objeto de desejo delas, substituindo seu ancestral primitivo. Na declaração de guerra, o que era catalogado como comportamento masculino foi visto com desconfiança ou pesar. Quase nada ficou de fora: agressividade, hiperatividade, superficialidade, nossos pelos… Tudo era prova de nosso machismo. Tudo precisava ser reeducado (e depilado).

Ok, ninguém mais defende besteiras do tipo “homem não chora”. Mas quem discute a utilidade prática de um chorão? Um camarada que vive “fragilizado” mata barata? Abre tampa de frasco? Vai ver se tem ladrão lá fora?

É claro que a obsolescência do “neandertalesco” machão deve ser comemorada. Não significa que o novo tipo, esse que tem sovaco liso, tenha utilidade. Então, que opção nos resta? Para as meninas, o ideal deve ser o famoso meio-termo “nem tanto ao céu, nem tanto à terra”: o cara sensível com pegada. Delicado e protetor.

Bom, se alguma moçoila conhece algum cabra que goste de cinema iraniano e saiba trocar pneu, boa sorte. Sou cético. Duvido da existência desse “elo perdido”. Mais fácil encontrar o príncipe encantado, com cavalo branco e tudo.

Revista ALFA Homem

2 comentários:

  1. kkkkk..achei demais...acho que quando um homem ama a gente automaticamente se transforma num desses daí!

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  2. Concordo com a dúvida de existência “elo perdido”. Talvez, os homens se tranformem um pouco, quando amam, mas as raízes “neandertalesco” ainda estarão prontas para ganhar terreno...
    Mas será que isso é tão ruim assim? ;)

    Beijos

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