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segunda-feira, 25 de julho de 2011

O Deus Que Não Podemos Deter

Título Original: The goldfish in the bag 

{Pra quem não gosta muito de ler, esse texto não é pra esses. Mas nesse assunto, precisei alongar...Aos apressados, sorry!}

Não gosto de falar da pessoa de Deus. Tenho um profundo temor quando se trata de citá-lo. Alguém uma vez já disse que toda a tentativa de falar de Deus pode limitá-lo a uma definição de alguém que Ele não é. Essa é uma verdade. Mas ousarei fazer um exercício: qual a idéia que temos a respeito de Deus? Pois crer num único deus não basta. Precisamos saber quem Ele é, pois uma idéia do que achamos que Ele é, não nos leva a conhecê-lo de verdade. Nós cristãos, pela fé cremos que a Bíblia é o livro escrito por Deus e por isso é o livro que o revela a nós, de forma clara e ordenada através das gerações. O frade holandês e missionário brasileiro, Carlos Mesters, sintetiza a história do Deus bíblico assim:

"A ação inspiradora de Deus no Antigo Testamento era como um filete de pólvora, cuja cor era igual à cor da terra. Antes, já se sabia da sua existência e do seu destino, mas não se conhecia ainda seu traçado preciso nem o conteúdo concreto desse traçado. Esse filete estava sendo conduzido por Deus até chegar ao fogo. No momento em que Cristo chega, ressuscita e comunica o Espírito, o fogo se acende e se estende à pólvora, iluminando, de repente, o seu traçado invisível."

Ou seja, Deus se revelou coordenamente ao povo hebreu por manifestações de todos os tipos, culminando na revelação final em Jesus Cristo à toda humanidade. Muitos homens ao longo da história ficaram ao lado Deus, obedeceram sua voz e por causa desses homens, hoje podemos conhecer o Deus que se revelou inicialmente a Abraão, Moisés, Isaque e Jacó e culminou na encarnação, morte e ressurreição de Jesus. Ou seja, podemos conhecer a Deus! E isso é magnifíco. Mas apesar disso, penso que por vezes temos cometido um grave equívoco com o conhecimento que adquirimos Dele: pensamos deter a Deus. A impressão que tenho é que por vezes tentamos colocar Deus num saco d'água e como crianças saímos expondo pra todo mundo que sabemos um monte sobre Ele. Colocamos com facilidade o nome de Deus em espaços argumentativos, aonde tudo que pensamos ou falamos, nos leva sempre a ter razão e nunca o contrário. Nesses espaços argumentativos, é possível prever o que Deus pensa do mundo e dos outros. O que Ele ama e o que Ele odeia, quem Ele salva e quem não salva, onde Ele está e onde não está. Bingo: acabamos de criar um deus pequeno, medíocre e naturalmente previsível. E suspeito que um deus assim não seja o verdadeiro Deus. Acabamos de cair no erro de crer numa idéia a respeito de Deus e não no próprio Deus.
A questão não é se a Bíblia é totalmente autosuficiente no seu caráter revelativo de Deus a nós. Ela é. A questão é até onde podemos falar em nome Dele, determinar o que Ele pensa, como age, quem perdoa, onde está. Nesse sentido, não somos totipotentes em nossas opiniões sobre Deus. Conhecemos Deus na Palavra e na pessoa de Jesus, integralmente. Mas muitas coisas de Deus, não temos acesso. Pra certas coisas, não temos explicações. São mistérios. Mas de algumas coisas eu tenho certeza: Deus não dá muita importância pra grande maioria das coisas que achamos importante, não descarta tudo aquilo que costumamos jogar fora, não odeia tudo aquilo que não gostamos e não ama tudo aquilo que jamais abriríamos mão de perder. Ele é diferente de nós. Ele é maior do que nós. As afirmativas de Deus extrapolam as nossas afirmativas, seu agir extrapola nossas atitudes, seus pensamentos estão muito além dos nossos pensamentos. O fato é que no fim, muita gente vive idealizando um deus imitador, que pensa "como eu penso", que faz "como eu faço". Cristãos de maneira geral negam veementemente isso na teoria. Mas tenho visto muitos viverem dessa forma, em seus conceitos, pensamentos e atitudes. Por trás de cada palavra e atitude dessas pessoas, é possível ver um deus nadando numa bolha d'água.
Suspeito que conheceremos melhor a Deus quando desistirmos dessa gana em ter razão sobre tudo que afirmamos em nome Dele. Penso que deveríamos baixar a nossa "bola". Aí então nos tornaremos pessoas menos arrogantes, menos prepotentes, mais amáveis e misericordiosas tal como Jesus Cristo foi. Talvez seja por isso que muitas vezes Deus pensa e age de forma que não esperamos. Para que sempre lembremos de que Ele é Deus. É completamente possível conhecê-lo. Mas é impossível detê-lo.

"Ele não é um leão domesticado." 
Tumnus a respeito de Aslam (Crônicas de Nárnia de C.S. Lewis)

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