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terça-feira, 14 de junho de 2016

A maternidade nossa de cada dia

Aí você tem filho. E descobre que não é nada daquela lindeza que o povo posta no instagram. Se sente até agradecida. Seu filho tem saúde. Tem se desenvolvido bem. E tudo caminha. Mas se tudo caminha bem, então quer dizer que você ainda não dorme a noite toda. Que anda sofrendo com as reações das vacinas ou o nascimento dos primeiros dentes. Voce ouve mais choros que risadas. Você chora mais que sorri. Você cansa todo dia e pensa como seria se não fosse. Se tudo vai bem é porque provavelmente está se sacrificando para fazer o melhor por eles. E mesmo com tanto esforço é julgada por todo e qualquer motivo. Se tudo está indo bem, você está achando que está fazendo um péssimo trabalho. Que poderia ser mais, fazer mais e se culpar menos.

A maternidade é estranha. É amor e é vontade de sair correndo. É realização pessoal em detrimento da profissional. É sacrifício desmedido sem reconhecimento. É ser feliz com coisas simples e é ficar triste por coisas mais simples ainda. É pensar que não estava preparada pr'aquilo e perceber que nunca estaria. Porque é mais do que se pode imaginar ou teorizar. E é diferente para cada mulher.

Marcela

quarta-feira, 25 de maio de 2016

In - gratidão



Por esses dias, embarquei num congestionamento (um percurso que deveria durar 20 minutos, 30 minutos no máximo, levou 1h40min da minha volta pra casa) que deixou meus nervos a flor da pele; dolorida, estressada e preocupada com as crianças (os dois dentro do carro, juntamente com a avó e a tia).

Fiquei boa parte do percurso reclamando em meus pensamentos. Estava exausta. O dia tinha sido difícil. A tpm estava sendo cruel comigo. E tudo isso junto causou no meu pensamento a maior série de reclamações da história (tenho tido muitas 'séries de maiores reclamações da história' ultimamente), e dramática como sou fiquei a ponto de - como dizemos aqui - arregar.

arregar - Ceder, desistir, não querer continuar, dar-se por vencido.

No entanto, meu temperamento pode ser pessimista, depressivo e dramático, mas da mesma forma - ou mais! -, é imensamente teimoso e (mesmo que muitas vezes eu ache que não) persistente. Veio como um sopro em meus pensamentos: - mas como você está sendo ingrata! Seus joelhos podem estar doendo, afinal o câmbio não é automático, mas já pensou quem está no ônibus lotado do seu lado? Já parou para pensar em quem está esperando na Integração?

Integração - terminal integrado de ônibus. Tem um no caminho que faço para casa.

Bom, agradecer eu não ia. Pois não queria estar ali. E Deus conhece meu coração, e minhas intenções de - para com Ele - ser o mínimo de hipócrita que eu consigo. Mas ingrata eu não queria ser. Eu não deveria ser, pelo menos.

Comecei a pensar nesse sentimento que é a ingratidão. E que, ultimamente, temos sido incitados a ser reclamões, a reclamar de tudo. E que - muito por conta disso - estamos começando a assumir uma postura de ingratos. Isso não é regra, é claro! Mas, vejam bem, quanto mais a gente reclama, menos o olhar de reconhecimento cultivamos; passamos a observar mais os pontos ruins, que os bons.

Não que, em si, a reclamação nos tornará ingratos; mas, provavelmente, nos levará para mais perto disso.

Ingratidão - qualidade de quem não reconhece o bem, ausência de gratidão.
Gratidão - agradecimento, reconhecimento.

Eu sou muito cética quanto essa balela história toda da positividade, otimismo, etc e tal. Mas tenho certeza que o caminho da gratidão deve nos levar a algum lugar realmente bom. No entanto, como eu disse acima, não acho que esse tal 'ser grato por tudo' é algo verdadeiro. Pelo menos para mim, não há como não ser hipócrita vivendo essa máxima. Mas se eu escolher não ser ingrato nos momentos difíceis e conturbados, é quase certo que será menos dolorido passar por eles. E como dá para perceber não ser ingrato nem sempre quer dizer que somos gratos. Eu não seria fingida de dizer que estava grata por estar naquele congestionamento, primeiro porque eu não estava feliz, ao contrário, eu estava mesmo muito irritada e cansada. Mas eu poderia escolher não ser ingrata com aquela situação.

Pois, apesar de cansada, eu estava bem, pois independente da hora que eu chegasse, eu iria para minha casa, e que apesar do cansaço e fome dos meus filhos, eles ficaram tranquilos durante todo o percurso. E que no fim das contas, cedo ou tarde, aquele congestionamento iria acabar, eu não iria ficar ali para sempre.

Percebi que assumir uma postura de 'não ser ingrato' é ser melhor consigo. E se esse processo nos levar ao caminho da gratidão, melhor ainda.


sexta-feira, 20 de maio de 2016

Voltei, e agora é pra ficar

"Porque aqui/ Aqui é meu lugar".

Então que esse negócio de 'outra conta, outro blog' não rolou. Eu simplesmente não consigo produzir. Não que voltar ao RADIANTE garanta que terá post frequentemente, mas sabe aquele negócio de 'voltar ao lar'? Voltar ao seu lugar aconchegante? É isso que estou sentindo com o Radiante. Então, que volto a postar daqui.

Aproveitei e trouxe a postagem do problema de saúde pós parto que tive, e que estou tratando. Achei importante ter disponível para leitura aqui.

No mais, é isso. O bom filho, a casa retorna.

O Que Me Faz Feliz Com a Vida - Um Post Sobre a Minha Recuperação





Na última semana, lendo um dos blogs que tenho costume de visitar, o Fêliz Com a Vida, a Fê Neute lançou um texto com a seguinte pergunta no final: o que faz você ser feliz com a vida?


Refleti sobre o assunto e apesar de ansiar por diversas coisas ultimamente que creio que me trariam ainda mais felicidade, sei que HOJE, o que me faz feliz com a vida - sem dúvidas - é ter saúde para estar com minha família.

Mediante a tudo que aconteceu comigo nos últimos três meses, ESTAR VIVA, sem qualquer sequela, é a maior gratidão que tenho. É por isso que esta semana, em que fazem exatamente três meses do acontecido, resolvi escrever sobre o assunto, que para nós - como cristãos - foi um milagre onde todo o cuidado de Deus se mostrou imenso e imutável.


O que aconteceu comigo

No início de janeiro passei alguns dias sentindo dor de cabeça e alguma tontura. Já tinha um tempo que eu não andava tomando meus remédios (da tireoide¹) direito e vinha sentindo alguns tremores. Além disso, eu acreditava que a 'tontura' que sentia era por causa da rotina que estava se ajeitando. Eu tinha uma bebê recém nascida que não dormia tanto quanto eu pensei que dormiria e que estava sendo amamentada em livre demanda. Ou seja, acordar a noite várias e várias vezes era somente uma parte do que a rotina tinha se transformado.

Foi quando, numa manhã, eu passei mal. Meu marido encontrou-me deitada no chão, a bebê estava sozinha no trocador de cima da cômoda, chorando copiosamente. Imediatamente, ele me socorreu. E nessa hora a gente vê a importância de ter vizinhos, pois - de imediato - foram eles que nos ajudaram. Um emprestou o carro² até a UPA mais próxima. Outra ficou de olho no meu filho de 3 anos que ainda dormia. Outra cuidava de nossa bebê enquanto nossos pais chegavam.

Duas semanas na em Restauração



Até onde sei, quando chegamos na UPA e me diagnosticaram com o quadro de convulsões; aparentemente, eu tinha um coágulo no cérebro, um provável trombo originado no pós parto que fez o caminho inverso (normalmente vai para as pernas) e foi para a cabeça, além disso, eu estava no puerpério e isso agravava minha situação.  Uma vaga no Hospital da Restauração foi logo pedida e não demorou a ser 'encontrada'. Parece surreal um hospital que é - muitas vezes - ícone da precariedade da saúde no estado, ter o melhor ambulatório neurológico de Pernambuco. Foi então que minha história ( e o milagre ) começou de verdade.

Passei dois dias na ala vermelha do hospital - é assim que chamam a UTI - e pelo que diziam os médicos, eu poderia sair de lá com algumas (ou várias) sequelas, ou até nem sair viva. Eu fico de cá imaginando o baque que meu marido levou. E tudo que ele suportou ao ouvir determinadas coisas no hospital. Ontem, uma amiga me contou que tinha uma amiga enfermeira que me visitava de vez em quando - lembro dessa enfermeira, mas não lembro o nome - e a tal enfermeira disse a minha amiga que "só um milagre" para que eu saísse viva e sem sequelas daquela sala.

Mas eu saí! Com dois dias fui para a chamada Ala Amarela. Meu marido me diz que eu dormi quatro dias. Ou seja, quatro dias que eu não vivi, que nunca me lembrarei, mas quatro dias que foram cruciais para que eu acordasse e, mais que isso, acordasse sem sequela alguma.

Mesmo passando quinze dias internada, nas minhas lembranças eles passaram como uns cinco dias. Meu marido e minha irmã dizem que eu parecia aquela moça do filme "Como se fosse a primeira vez" e quase todos os dias eu perguntava e eles me explicavam o que tinha acontecido. Minha irmã ficou comigo praticamente todos os dias. Lembro inclusive do dia em que eu fui fazer a ressonância e precisei ser sedada pois não estava conseguindo relaxar dentro da máquina, e ela estava sempre lá do meu lado.

Quando eu acordei, tive uma pequena perda de memória recente e isso me deixou muito angustiada e ansiosa. Eu não lembrava porque estava ali e porque meus pais não iam me visitar (eles estavam com a minha bebê). Eu não lembrava, por exemplo, que uma das minhas vizinhas tinha tido um bebezinho (que nasceu em setembro). Eu não lembrava que já tinha passado as festas de fim de ano. E nem como ou onde passei o réveillon. Mas o pior de tudo: eu não tinha lembrança de ter estado grávida novamente, tampouco que tinha uma bebê me esperando em casa. Só acreditei ao ver algumas fotos e perceber o leite escorrendo por minha roupa.

E a falta de lembrança de Mallu me angustiava.

Com o tempo, essa angustia foi passando. Eu fui me lembrando e fui sentindo saudade. E não sei o que era pior. A angustia do esquecimento ou a saudade dos meus pequenos.

Eu recebia mensagens de várias pessoas no whatsapp. Todos querendo saber o que de fato aconteceu. Todos dizendo que estavam orando, rezando, torcendo e intercedendo por mim. Era muito emocionante ler essas mensagens. A mais linda e singela delas, a do meu primo Marlon, de apenas 11 anos (aquele menininho que eu vi nascer, crescer, e se tornar o rapazinho que é hoje), dizia para mim:

"estou orando pra você voltar logo! vai dar tudo certo".

E deu.



Já falei na postagem anterior antes que apesar de passar uns quinze dias no hospital, para mim, soou com uns cinco somente. É por isso que por mais que me esforce, não consigo lembrar de muitas coisas. A maior parte da minha "memória" quanto ao que me ocorreu foi formada pelo que meu marido, minha irmã, meus pais e outros me contaram.



Antes de continuar gostaria de esclarecer somente algumas coisas que ficaram meio que perdidas na postagem anterior:



1. Muitos anos atrás descobri que tenho uma doença na glândula tireoide chamada: hipotiroidismo. Mas somente a uns três anos foi que tomei conhecimento que esse problema se deu por eu ter a tal da Tireoidite de Hashimoto, que é uma doença autoimune e que - como deu pra reparar - atinge uma das glândulas mais importantes do nosso corpo. Uma doença como essa pode nos proporcionar alguns transtornos mentais mais específicos como transtorno bipolar, ansiedade generalizada, e até depressão. No meu caso, o que aparentemente aconteceu foi um transtorno de ansiedade que gerou todos os outros problemas.



2. Sobre os vizinhos: Meu vizinho emprestou o carro. Nós temos carro, mas na correria, na agonia e pelo simples fato do carro do vizinho já estar fora da garagem, foi ele que foi usado. Se você já precisou socorrer alguém sabe que não dá para pensar em muitas coisas e o caminho mais 'fácil' é o que devemos usar. Vejam só, meu marido tratou apenas de me vestir e de separar uns documentos para seguirmos para a UPA; ele esqueceu de vestir a ele mesmo, estava descalço e sem camisa. Eu não consigo imaginar tamanha a preocupação em me socorrer.



E então... continuando minha história de recuperação:


Eis que depois do susto, tudo deu certo. Deu!

Aparentemente, se tinha algum coágulo este já tinha se dissipado/diluído/sei-lá-como-se-nomeia-esse-tipo-de-coisa e eu não corria mais nenhum risco. No entanto, como é de praxe que somente depois de alguns exames a gente receba alta, continuei com minha rotina hospitalar mais uns dias, e mais dias do que eu poderia querer.



Apesar de termos plano de saúde, foi no Hospital da Restauração que permaneci. Não por falta de tentativas de me remover para outro centro médico, mas por conta da falta de autorização para ser removida e, além disso, pelo Hospital da Restauração ser referência na área de neurologia. Aliás, para ser muito sincera, dentro das lembranças que tenho fui muito (mas muito mesmo) bem tratada na Restauração. É claro que não posso desfazer da falta de estrutura que o serviço público tem. A falta de leitos é claramente observada nos corredores, sempre cheios de macas. E se você tem alguém que lhe acompanhe, normalmente ele ficará desamparado. Pois, se o conforto já é mínimo para o doente, para o acompanhante... Não existe!

Dentro da 'ala amarela' estava sempre - até onde me lembro - sendo bem assistida e sempre medicada pelas enfermeiras. E mesmo assim, não foi fácil. Pra ser sincera, partia meu coração ver meu marido dormindo ali do lado, numa pequena poltrona.



Alias, se eu estou aqui hoje contando essa história o mérito é primeiro de Deus, e depois, dele! Eu não sei onde colocar minha gratidão de tão grande que é. Durante aqueles dias eu só pude ver provas e mais provas de que a nossa parceria é realmente algo grande e forte. Mais forte do que poderíamos expressar em palavras. Em um momento como esse é que podemos, enfim, fazer valer aquela promessa, muitas vezes negligenciada, que fazemos na troca das alianças:



"na alegria, na tristeza; na saúde e na doença..."



E a verdade é que nem todo mundo está preparado para viver algo assim. Digo no sentido de acompanhar todo esse processo. Só posso mesmo agradecer a Deus por cuidar da mente, da força e da disposição do meu marido, pois de uma coisa tenho certeza: não foi fácil!



Pensar nisso me faz sentir que lembro de tão pouca coisa. Lembro das injeções, pelo menos três de hora em hora. Dos remédios (sou uma hipocondríaca em potencial) e do meu marido dizendo que eu adorava esse momento - hehehe. Da comida, que, surpreendentemente, era ótima. E de algumas pacientes que estavam lá comigo.



Passar esse tempo internada me fez perceber que apesar de ter (quase) acabado com minha 'vida social' e mal ver os amigos desde que me tornei mãe, ainda os tenho. Fiquei realmente surpreendida com o tanto de mensagens que recebi. Com o carinho, com a preocupação e com quem pôde se dispor a ir me visitar ainda no hospital (Mônica, querida, obrigada por tanto carinho!). Mas acima de tudo, fiquei muito surpresa em ver tanta gente unida orando por mim. Ver igrejas pedindo pela restauração da minha saúde. E ver a sincera alegria em quem me vê bem, restaurada.

Muito obrigada!


Acredito muito que essa corrente de orações realmente chegou aos céus e Deus cuidou de mim para que tudo realmente desse certo.


O que acontece agora
Na última semana fiz minha visita de volta ao neurologista e, depois de mais um eletroencefalograma, está tudo atestado que estou bem. Ufa!

No entanto, estou tomando remédios para evitar convulsões e a recomendação é tomar por - no mínimo - dois anos. Estou marcando a volta ao endocrinologista para continuar a tratar a tireoide e evitar novos transtornos.



Meus filhos estão bem. Já me lembrei de quase tudo referente a Mallu; gravidez, parto, vida pós parto e lembrei do dia que eu passei mal também. Pietro continua bem e eu não perdi nada da memória em relação a ele - acho! -. Por causa desses problemas e de um bocado de medo meu, Mallu não voltou a mamar.


Ainda me percebo meio desatenta e sei que é reação do remédio uma certa sonolência que venho sentindo. As vezes, quando estou conversando com meu marido vamos resgatando algumas coisas que a memória não registrou, e me impressiono. Coisas que aconteceram depois que eu já estava em repouso na casa da minha mãe ficaram perdidas na minha mente.



É claro que perto do meu quadro inicial, esse são eventos muito pequenos. Comparado a minha situação quando fui socorrida, isso é mínimo. Próximo de tudo que eu poderia ter como sequela, isso é nada.



Estou levando uma vida completamente normal. É claro que temos cuidado. Estamos atentos. Mas creio com muita fé que fui salva. Eu continuo acreditando em milagres. E quando me perguntarem o porquê disso, terei prazer em dizer: ACONTECEU COMIGO!